sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Eu tenho tentado muito, Ricardo, acreditar em mim, usar as ferramentas que adquiri num escambo de destinos para manusear propriamente todas aquelas coisas sobre as quais já conversamos tanto. Acho que funciona num nível que só posso perceber depois que o tempo passa, mas de vez em quando me sinto percebendo as coisas ainda em processo, entende? Fico vendo eu não ser mais o que era, eu sendo essa pessoa a quem minha família não conhece mais e nem meus afetos antigos ou novos. Eu sendo mais eu, eu andando na estrada, olhando com calma o céu, entendendo de onde vem meu tesão pela vida, tão distante de qualquer coisa que eu possa esperar de qualquer um. Vejo a mim, minha falta de tato pra lidar com meu tato, que por vezes supreende também. 

Em síntese eu ando muito bem, meu caro, tem me visitado um certo êxtase que é como um orgasmo de idéias, tão robusto que eu, em minha falta de costume com isto que me é tão caro na vida, me embanano toda, fico ser ar, o sangue circulando no cérebro e no fundo eu pensando "é isso que eu quero pra mim, essa falta de controle que jorra e me faz sentir viva". É um tempo de poucas crenças formuladas, amigo, saudade nenhuma me visita mais, tampouco ilusões deslumbradas com o futuro, fico só vivendo e vendo como as coisas se transformam. E tudo isso, porque ali, em um ponto, eu deixei de temer e dei um passo... o medo não é coisa que se sinta, homem, é coisa mais para se queimar numa fogueira que se ilumina enquanto o céu escurece. Por isso não se acanhe, não, entre aqui mais delicado e sem aquelas tuas defesas absurdas. Expõe as feridas que vamos nos lavar em água translúcida e exibir as fases de cicatrização no meio do caos do mundo cinzento. Ele não é nós.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Hoje que tudo que está estranho e estamos mudos, passarei um café às nove horas da noite. Talvez a mente se alvoroce e se encaminhe para um lugar inédito, embora isso seja um expectativa alta pra quem cumpre ciclos de vício. Eu flutuo em mim, nem sempre é bom. Talvez eu espere que o doce amargo do café tenha gosto do amor que não alcanço ou da grama por trás dos muros que não ultrapasso.