sábado, 24 de abril de 2010

e-mail enviado, alguns dias depois

Minha filha,

como está tudo?  Tá se adaptando à casa, à língua? Já comprou o resto da roupa de frio que você precisava? Já foi no lugar do curso acertar a matrícula? E o resto, tá feliz? Já conheceu muita gente?

Por aqui tudo bem, só sua vó que tá gripada, to indo lá todo dia fazer sopa e dar remédio pra ela. Ela já fez muito isso por mim, agora é minha vez. Logo ela fica bem , te mandou um beijo e falou pra você não deixar de carregar a medalhinha de nossa senhora que ela te deu.

Sua presença faz falta na casa. Saudades.
Te amo,

Sua mãe

segunda-feira, 19 de abril de 2010

anotação para um roteiro em forma de carta não enviada

Lídia, minha filha

a essas horas você está voando. Cheguei agora há pouco do aeroporto, fiz viagem tranqüila apesar do trânsito pra sair do Rio. Fiquei pensando em você sozinha no velho continente, me deu um aperto no peito, um vazio aqui dentro. Mas sei que é isso, seu caminho, sei que você vai voltar outra, que provavelmente vai voltar mulher, cheia de caminhos abertos. Uma vez, quando você tinha seis anos, me perguntou se a gente podia ser qualquer coisa que quisesse, eu disse que sim, que era só a gente querer ser, que já estava sendo. Hoje queria te dizer que não é bem assim, que entre uma coisa e outra existe as nossas barreiras que podem ser enormes. Talvez quanto mais velho a gente fique, maiores elas sejam. Então aproveite pra quebrá-las agora, com seus 17 anos, tudo é mesmo possível. Acho que estava falando de mim, não de você. Agora vou ser obrigada a resolver as minhas próprias coisas, sem ter você pra cuidar. No fim acho que você nem precisava mais que eu cuidasse de você, sempre foi tão independente, e eu insistindo, achando que podia fazer melhor aquilo que você mesma já fazia por si. Tô pensando em arrumar um cachorro pra não ficar muito sozinha, mas acho que não vai adiantar de nada, nem sei do que eu preciso.

Seu pai ligou agora lá do Recife querendo notícias, eu disse que você embarcou, que tudo bem, pra não se preocupar. Ele estava naquele tom estressado de sempre dele, e eu tentando relevar porque não tenho mais nada com isso. Mantenha contato com ele sempre que der, se não vai sobrar pra mim. Você sabe que na cabeça dele você é feita de cristal e pode quebrar.

Não vou me estender muito porque não quero passar sentimento ruim pra você. Tá tudo dormente aqui por dentro e não consigo nem me lembrar o que tenho pra fazer amanhã ou depois. 

Fica bem, se cuida bem aí, tenta comer direito, mesmo sem o feijão da mãe.

Te amo muito,

sua mãe

sábado, 10 de abril de 2010

Efeito Colateral D'O Livro dos Prazeres

Para Ulisses

Ela ficava me perguntando como eu me via e nesse momento entendi o óbvio: tinha algo em mim da mulher que ela queria ser e vice-versa. Esperava que eu ensinasse qualquer coisa, mas eu não podia e na verdade não senti vondade de. Talvez porque me incomodasse ela me ver como uma espécie de cânone quando na verdade por dentro eu estivesse gélida olhando o sem fim de algum buraco. A doçura se desfez, por fim, toquei seu ombro e olhei em seus olhos por milésimo muito pequeno de segundo. Esbocei alguma despedida por educação e, no caminho de casa, amarguei-me. Sentia-me esfarelando a terra que me separava do buraco.

A doçura se refez, pela simples razão de que gosto muito do doce e levar a amargura para aquela relação (que naquele momento já era outra) era jogar no buraco algo que não me pertencia.
Agora vou ficando leve de novo, voltando ao início onde não havia nada, retornando, vendo o que há, que é quase nada, como quase tudo.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Miragem de coisa amorfa, sigo.
Há na superfície da água rugas do vento gelado.
Dos encontros pelo caminho levo muito do que imagino, sigo só.

Nas noites faço abrigo em casa flutuante que carrego, tem as paredes brancas de cal com veias de heras. Dentro, só um colchão acizentado onde me encolho em posição fetal e abraço a mim mesma, como que suprindo a minha carência e a dos de todos que encontro numa tentativa de remediar os vazios afetivos da nossa época. Gosto de criar uma ilusão mística de que, enquanto faço isso, todos eles recebem também algum calor e talvez possam sentir na pele um pulsar fora de sincronia com os deles próprios.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

bruta flor do querer

e queria ser mais dócil, não enducer-me toda dentro do espaço entre eu e o outro
é na verdade alguma sanidade subjetiva, defesa, retorno ao centro seguro
queria não esperar e ser apenas
algo assim