sexta-feira, 19 de março de 2010

9

O ruído das ruas
O ruído das casas
Todo dia.

O ruído das ruas
Que não passa
E o ruído das casas
Todo dia.

O ruído interior
[O meu ruído
De víceras e vida
Que não passa].

O meu pedido?
Esse ruído de amor
Que se desfaça.


Sim, Hilda Hilst, de novo.

Água e Vento

E sendo assim, tão pequena, escorro, pois há um lago enorme que, apesar de calmíssimo, transborda aos poucos imergindo a vegetação. Curso de veludo, calma que inebria meus olhos.

Na rua ou através da janela a suspensão acontece com cada vez mais freqüência, deixo o lago e tremo à sombra de um ar veloz, que me arranca de mim e me joga numa percepção aguçada, algo como uma meditação involuntária. Seca meu corpo, é efêmero como tudo é.

Fico existindo somente o momento e volto um pouco mais solta ao lago, onde, numa espécie de batismo constante, me banho. Acontece principalmente nas manhãs, quando saio vagarosa, encharcada do fundo lodoso disto que sou eu. Mas pode acontecer a qualquer momento, à noite quase sempre tem vento muito forte. Reinicio.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Passeio

1

Não haverá um equívoco em tudo isso?
O que será em verdade transparência
Se a matéria que vê, é opacidade?
Nesta manhã sou e não sou minha paisagem
Terra e claridade se confundem
E o que me vê
Não sabe de si mesmo a sua imagem.

(...)

Hilda Hilst
de novo, sempre

terça-feira, 9 de março de 2010

Do amor contente e muito descontente

12

O tempo é na verdade o do retorno.
Pensa como se agora fôssemos argila
E estivéssemos sós e mudos, lado a lado.
Por um momento (se viessem chuvas)
Talvez se misturasse o meu corpo com o teu
E um gosto de terra úmida aproximasse

 

Brandamente
As nossas bocas.

 

Que seja assim lembrada a tua ausência:
Como se nunca tivéssemos nascido
Sangue e nervos. Como se nunca tivéssemos
Conhecido a verdade e a beleza do amor.
Pensa como seria se não fôssemos.
E não houvesse o pranto, o ódio o desencontro.
O tempo é na verdade o do retorno.
Se não for amanhã, será um dia.
O céu azul e limpo, o mar tranqüilo
Pássaros e peixes, pássaros e peixes

 


Mais nada.


Hilda Hilst