terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Enquanto eu me lamentava, ele disse:

- O passado não existe, a memória tampouco, são monstros que você cria e alimenta periodicamente.
- Meu caro, não é presunção, mas eu sei tanto disso que falas, mas saber não me livra dos monstros.

É algo mais ou menos assim: ando muito cansada de mim, dos meus próprios psicologismos que se repetem exaustivamente a cada retorno. "Aflição de ser eu e não ser outra" . O monstro grande está grudado em mim como um irmão siamês que se cria, invisível, desde o útero. A essa altura da minha vida, outros pequenos já nascem, por brotamento, dele: do meio de seu ventre, das orelhas e dos joelhos. Ele tem um aspecto disforme, com a pele de um cinza azulado, feito cadáver de óbito já um pouco antigo. E tem uma película de gosma transparente pelo corpo. É tão bonito, o monstro. Tem o nariz grande, acho, os dentes afiados feito uma piranha. É muito carnívoro mas também aprecia muito pequenas flores delicadas e selvagens que rouba de mim quando, terna e melancólica, ando por campo de mata alta fazendo um pequno buquê. Come as flores pela cabeça principal, sobre o tronco, mas as vomita pela cabeça do ventre, transformando toda a minha ternura em líquido espesso e esverdeado. Ele é muito forte, e quando digo que me cansei de mim, é por culpa dele, que me fez amá-lo desde os primórdios, quando o desamor era tão grande e eu, recém-nascida, precisava de proteção. É desses amores de dinâmica de subordinação. Eu, claro, me ajoelho com a testa no chão diante de sua força. Mas fui crescendo também, e agora, pela primeira vez, talvez, eu o vejo como um ser à parte de mim. Cheguei a roubar a oficina de meu avô uma serra grande e enferrujada, enquando ele dormia. Mas tive medo porque ele está grudado em mim pelo ombro esquerdo e temi que um braço novo não crecesse e eu passasse a vida inteira como aleijada. Claro que a essa altura ele já sabe dos meus planos, a pequena cabeça da orelha esquerda viu-me olhando, assustada, as ondulações da serra. Por conta disso está mais agressivo que nunca, coloca as mãos sobre meu rosto e aperta as unhas encardidas, me machucando. Eu não grito, mas choro muito. Eu pediria ajuda, se alguém mais pudesse vê-lo e alcançar o apuro necessário pra essa operação. Fico imaginando que cor ele teria depois de morto. Talvez ficasse de um bonito violeta e eu pudesse colocá-lo num vidro grande cheio de formol e expor na prateleira da sala. Ando agora pensando que talvez um líquido ácido seria ideal para a retirada. Só tenho medo de ficar só.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Foi crascendo em mim uma coisa como que um touro que queria aniquilar brutalmente toda essa angústia que cresceu da minha insegurança. Comecei a bufar mesmo, literalmente, a energia crescendo, a parede da pele pulsando, criando o impulso para que eu levantasse e corresse com passos pesados e dolorosos, vão deixando o meu próprio sangue todo pisado, escuro. As veias vão estourar, a minha cabeça lateja, é uma explosão, o músculo do coração se contrái até que já não leva fluído. Vou cair morta como um pêssego podre que deixa a suntuosa árvore da vida, robusta cresce rumo ao céu, esplêndida cresce exibindo sua maravilhosa seiva, mas eu agora quebro o galho, o mais frágil deles todos, e me sinto caindo rumo ao chão. A pressão do ar contra a gravidade, pré sinto o impacto.Caio e explodo a película de minha casca já fina pela podridão, meu suco de tão doce já tomou um gosto desagradável, mas se espalha pela terra, ela deve gostar, não sei. Esse morrer é tão dolorido que por algum motivo tenho a impressão que também estão podres minha sementes, como ovários inférteis sobre um útero vazio.