segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Num gole de café no meio da manhã, deposito o que ainda existe de vida dentro
Quente, espesso e levemente doce, ele me salvará de mim



Mas bebo e continuo um pouco adormecida
o peito também dormente, como que anestesiado
Há algo que eu preciso fazer há tanto tempo
Algo como pedra bruta, ganga áspera
Toco, mas não vejo
sinto, mas não sei



E amanhã, caros, será só mais um dia de chuva

domingo, 18 de outubro de 2009

VIII

Costuro o infinito sobre o peito.
E no entanto sou água fugidia e amarga.
e sou crível e antiga como aquilo que vês:
Pedras, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam.

Hilst.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Percebo intrigada, sempre de novo, que todas as descobertas enormes que me fazem ficar suspensa no tempo e ter a impressão de que os dias nunca serão iguais acabam por diluir-se neste presente contínuo e infinito. O momento de ver além de elementos tais como o tempo e os fatos, de ver-me inteira - o eu-passado, o eu-presente e o vir a ser, todos juntos numa unidade - sempre se esgota, ainda que eu tente me agarrar nas pilastras de mármore branco desse palácio,
De um lado abismos, clareiras, monstros de medo e mares inteiros de calmaria.
Do outro maçãs, dores de dente
Com metade das unhas cortadas, sinto a morte tomar meu corpo. A dor se espalha. Logo serei outra.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009



"Simplesmente não posso acreditar que um artista seja capaz de trabalhar apenas para dar expressão a suas próprias idéias e sentimentos, os quais não têm sentido a menos que encontrem uma resposta. Em nome da criação de um elo espiritual com outros, a auto-expressão só pode ser um processo torturante, que não resulta em nenhuma vantagem prática: trata-se, em última instância, de um ato de sacrifício. Mas valerá a pena o esforço, apenas para se ouvir o próprio eco?"
Andrei Tarkovski

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Nota de luto



A gente acha que por ser jovem não vai perder os amigos próximos. Vinte poucos anos e invencíveis. Mas a vida é muito frágil, a qualquer momento. É nesses momentos que as filosofias e palavras floereadas deixam de fazer sentido. Meus profundos sentimentos.

Voe livre, Gaivas.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Da escada alta arremessei uma berinjela pela janela da minha casa antiga, o vidro estilhaçou-se. Caí, morri, um suicídio, talvez. Mas voltei como uma mentira, cercadas de dedos eretos à minha volta.