quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

"Porque você não pode voltar atrás no que vê. Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo."

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Não vá se esquecer.

A minha loucura me escapa depois de horas perambulação dentro de mim. Vejo-me de repente, num relance, já em estágio avançado sem perceber o percurso. Eu, que sempre - mesmo sozinha - pareço tão equilibrada, num auto controle invejável. Eu, este ser lotado de orgulho disfarçado me vejo de repente de cócoras ao lado da mesa de centro, os cabelos desorientados em volta do rosto e até os ombros, com um cigarro esquecido no chão. Eu, a cheia de pudores, me achei nua na casa vazia olhando algo que não sei, pois quando percebi só podia olhar a mim, de repente eu me olhava.

Ah, eu poderia comer uma barata agora, Clarice! uma duas cinqüenta baratas numa salada de rúcula. Ridícula, foi como eu quis me sentir, mas não senti, só continuei ali, sustentando o meu corpo pesado nas panturrilhas tensas, imersa num vazio tão grande que não me cabia. O trem passou e eu tremi, não ouvi, gritei gritei sem som com o trem. Ele passou e voltei a ouvir ali Bethânia tentando me acalmar de dentro das caixas pretas.

- Tenha calma, respira. Mas não me vá esquecer do que me prometeu, sua desgraçada. Desta forma eu já não te suporto - depois de dizer isto a mim, levantei me recompondo e me fiz um chá.