quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

"É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo
de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo."

Clarice Lispector



...o tempo se perdia em um quarto escuro e sem nenhum movimento. Dois ou três dedos do pé direito quase totalmente imersos numa água negra e espessa de uma das muitas poças asquerosas que se formavam por todo o cômodo. Supunha que chovia lá fora, mesmo que não ouvisse barulho algum. Poderia estar surda ou o mundo em que há sons estivesse muito distante. Não estranharia também se se descobrisse muda. Todos os gritos quer sentia brotar não faziam nada além de tremer-lhe inteira por dentro. Cega tinha certeza que estava. Não que o defeito nos olhos lhe fosse óbvio, a cegueira estava em não levantar as costas daquela parede áspera em busca de uma passagem para além do breu. No fundo de si sabia que se quisesse retornaria aos dias que nascem e se põe, mas se impedia de lembrar disso. Sentia muita saudade, não nostalgia.

Sentia saudade de tudo, do passado inteiro, da infância, dos conturbados anos de descoberta, do nascimento e da morte dos amores e também do futuro em toda a sua obscuridade. Não queria, no entanto, retroceder ou avançar. Ali, naquele quarto, a inércia era tão grande que não sentia o mínimo desejo de nada. E sentia muito nojo de si por alguns segundos, toda essa falta de movimento ia contra os seus valores mais primordiais, deixava-se sentir em relação a si mesma o nojo que a moral não a deixava sentir contra o mundo em outros tempos. Ela ali parada, acomodada, sem sombra de impulso, criação, paixão, manifesto. Era, enfim, humana.

Mas não queria ser gente porque já havia tocados os deuses, já havia se sentido parte de florestas que gritam na madrugada infinita, já tinha sido persistente com uma pedra e passado - como o tempo - dentro de um rio de águas verdes.

O que ela não via, por culpa do escuro e da cegueira, é que - também por culpa destes -qualquer perspectiva se dissolvia, toda via se fazia oculta, qualquer porta trancada. Não que esta consciência fosse trazer qualquer luz às suas limitações. Estava conhecendo um novo deus, um deus essencial para que compreendesse a sua humanidade, sua orfandade. Compreender que ser humano é ser todos os deuses ao mesmo tempo, todo o universo na lágrima que acenderá uma pequena luz e trará um impulso de movimento. Agora ela não sabia, agora ela era o breu e o silêncio. As minhas esperanças (não as dela, que já se esgotaram todas) são de que ela termine se se tranformar no silêncio, na imobilidade e no breu para que possa voltar a esse quarto sagrado sabendo a medida exata do quanto permanecer trancafiada, o tempo certo de ter esperança e de permanecer imersa nas águas da solidão.