sábado, 6 de novembro de 2010

Não existe tal coisa como a segurança. O estado de se sentir seguro nada mais é que um ignorar todos os fatores de impoderabilidade e desdobramento de alguma questão (ou do próprio ser). Estar seguro é, na verdade, esquecer-se da noção de segurança e voltar-se ao presente, onde as coisas são somente em essência.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Eu tenho tentado muito, Ricardo, acreditar em mim, usar as ferramentas que adquiri num escambo de destinos para manusear propriamente todas aquelas coisas sobre as quais já conversamos tanto. Acho que funciona num nível que só posso perceber depois que o tempo passa, mas de vez em quando me sinto percebendo as coisas ainda em processo, entende? Fico vendo eu não ser mais o que era, eu sendo essa pessoa a quem minha família não conhece mais e nem meus afetos antigos ou novos. Eu sendo mais eu, eu andando na estrada, olhando com calma o céu, entendendo de onde vem meu tesão pela vida, tão distante de qualquer coisa que eu possa esperar de qualquer um. Vejo a mim, minha falta de tato pra lidar com meu tato, que por vezes supreende também. 

Em síntese eu ando muito bem, meu caro, tem me visitado um certo êxtase que é como um orgasmo de idéias, tão robusto que eu, em minha falta de costume com isto que me é tão caro na vida, me embanano toda, fico ser ar, o sangue circulando no cérebro e no fundo eu pensando "é isso que eu quero pra mim, essa falta de controle que jorra e me faz sentir viva". É um tempo de poucas crenças formuladas, amigo, saudade nenhuma me visita mais, tampouco ilusões deslumbradas com o futuro, fico só vivendo e vendo como as coisas se transformam. E tudo isso, porque ali, em um ponto, eu deixei de temer e dei um passo... o medo não é coisa que se sinta, homem, é coisa mais para se queimar numa fogueira que se ilumina enquanto o céu escurece. Por isso não se acanhe, não, entre aqui mais delicado e sem aquelas tuas defesas absurdas. Expõe as feridas que vamos nos lavar em água translúcida e exibir as fases de cicatrização no meio do caos do mundo cinzento. Ele não é nós.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Hoje que tudo que está estranho e estamos mudos, passarei um café às nove horas da noite. Talvez a mente se alvoroce e se encaminhe para um lugar inédito, embora isso seja um expectativa alta pra quem cumpre ciclos de vício. Eu flutuo em mim, nem sempre é bom. Talvez eu espere que o doce amargo do café tenha gosto do amor que não alcanço ou da grama por trás dos muros que não ultrapasso.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

-  bom dia ser do deserto, quem te graniza nesses meses?
- cinza
 cimento carcerário
- nenhuma flor morta?
 viva também serve
- sim, uma pequenucha
- mas de preferência morta, por favor. é pra um enterro
- mas, regando ela vinga
- nunca entendi flores vivas em enterro. é uma celebração da morte, ora essas
 ela tem cor ou é daquele marrom da morte?
- tem cor de seca
- seca... como as sempre-vivas
- tons pastéis
 cinza cimento
- acho bonito
 nunca vi flor assim
- tem gosto salgado
 tem cheiro de mar
- deve ser engraçado comer essa flor
 você riu?
- tão pequenina que mal cabe nos olhos
 não pude evitar, faz cócegas no céu da boca
- ah, então você colocou nos olhos. por isso estão salgadas e com cheiro de mar
 bota as flores no mar dos olhos, depois no céu da boca
 falta a terra do ânus e o fogo do sexo
-somos, nos reconhecemos, raiz terra
 a brasa sossegada na bituca do dedo



[com a colaboração de d'o desvio]

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Achei numa caixa um  frasco bordô translúcido
Nele, as últimas gotas de um perfume antigo
Borrifei na nuca, pescoço e punhos
Respirei fundo, dei tempo à memória



Veio ela, uma saudade
Não do amor, mas de mim quando amava.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Exibicionistas têm olhos opacos

Eu não, guardo-me dentro de mim
e só saio por amor
ou necessidade
Assim fica na alma algo translúcido
que se possa ver através dos meus olhos

domingo, 18 de julho de 2010

Outra morte

E se me canso de mim é porque não sei ser nos dias.
Mas alcanço o limite e sem respirar me umideço.
Sem poder opor resistência, encaro as ardilosidades da mudança
E disforme, incontente, numa subexistência
Deixo mais uma vez o agora

"E ninguém aqui vai notar..."
Nunca sentirei saudade das formas anteriores
Se destruo, é por necessidade e até um pouco de ódio, incapacidade de amar.
Eu já fui. Tudo que vir, é recontrução, é outra.
Alívio para o cansaço de ser.

Que venha o limbo.